domingo, março 12, 2006

Pós-modernidade? Uma cosmovisão outra


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

"O homem é no tempo, melhor, é temporal, pois o tempo é o modo como o ser finito se realiza. Somos seres históricos e, também para melhor nos situarmos, dividimos a História em épocas: a Antiguidade, a Idade Média, a Modernidade.

Não falta quem fale já em pós-modernidade - outros dirão modernidade tardia, segunda modernidade... Não vamos entrar nesse debate. Partimos apenas do entendimento de que, com esse termo, se quer exprimir uma crise e que precisamos de uma nova cosmovisão.

1. Assim, a modernidade caracterizava-se, antes de mais, pela razão clara e distinta, que tudo mede e calcula. Já não era a razão contemplativa dos clássicos e dos medievais, mas a razão orientada para o domínio, aquela razão que será chamada razão instrumental.

Ora, não podemos negar tudo quanto se deve à razão moderna. Mas ela não nos empobreceu também, podendo colocar-nos inclusivamente à beira do abismo? Será que a realidade é só o que se pode medir e calcular? Se se pretende reduzir tudo ao quantitativo, onde é que está o qualitativo, o belo, a sensibilidade, o corpo, a emoção, a racionalidade simbólica? A razão esqueceu por vezes o outro dela. Este outro é o corpo, a emoção, a sensibilidade. No ser humano há a pulsão e a lógica, a afectividade e o pensamento, a emoção e o cálculo, o impulso e a razão - a razão que sente.

2. Tratava-se da razão dominadora da natureza. Mas hoje tomámos consciência da necessidade de uma nova atitude perante a natureza. Estão aí a exigi-lo os problemas da ecologia, do aquecimento global, com catástrofes à vista.

3. A razão moderna foi uma razão eurocêntrica, centrada na Europa. Mas hoje damo-nos conta de que há uma só humanidade. E, apesar de, após a queda do Muro de Berlim, estarmos frente à hegemonia de uma única potência mundial, não se pode esquecer que o mundo se tornará cada vez mais policêntrico. Não está aí a globalização a demonstrá-lo?

4. Essa razão também se impôs no quadro de uma sociedade colonialista e imperialista. Mas, com a globalização e a interdependência mundial, será necessário retomar velhas ideias cosmopolitas. E cada vez mais se impõe aos espíritos mais atentos a importância de uma ONU mais forte e com preocupações humanistas.

5. Com o afundamento do comunismo, do chamado "socialismo real", impõe-se afirmar que o capitalismo desenfreado enquanto neoliberalismo não é de modo nenhum a solução. Trata-se antes de caminhar no sentido de um paradigma pós-capitalista e pós-socialista. Afirmará o mercado, mas não pode sucumbir à sua lógica, esquecendo a dimensão social e ecológica. O terrorismo não tem como única explicação a injustiça. Mas, enquanto houver injustiça, não se poderá viver em segurança. A História não terminou e o tempo das revoluções também não chegou ao fim.

6. O novo paradigma é pós-industrial, pois caminhamos cada vez mais para uma sociedade do conhecimento, da informação, da comunicação e da prestação de serviços. Isto implica, por exemplo, um novo conceito de trabalho. Também se torna claro que o trabalho será cada vez mais um bem escasso, que precisa de ser partilhado, com todas as consequências. Torna-se igualmente urgente apostar na cultura, no quadro de um diálogo verdadeiramente multicultural. Não basta incidir na tecnologia, esquecendo a formação cultural, artística, também para que as pessoas possam viver em realização humana autêntica, plena.

7. O novo paradigma é inevitavelmente pós--patriarcal. A emancipação feminina é uma das maiores revoluções da segunda metade do século XX, cujas consequências, na família, na compreensão da sexualidade, na relação entre os sexos, na sociedade em geral, incluindo a economia, estão ainda em curso.

8. Durante o Iluminismo, não faltaram vozes que criticaram a religião, e são também muitos os que têm anunciado o seu fim. Mas a profecia do fim da religião não se confirmou de modo nenhum.

O que se passa é que, como, no que se refere ao multiculturalismo, se impõe o diálogo entre as culturas para evitar o "choque das civilizações" e favorecer o seu encontro, também é urgente o diálogo entre as religiões. Como se não cansa de repetir o teólogo Hans Küng, em cujo pensamento esta reflexão se inspira, "não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. O nosso planeta não irá sobreviver, se não houver um ethos global, uma nova atitude ética para o mundo inteiro"."

Fonte: Diário de Notícias

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