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terça-feira, maio 15, 2007

Criminologia de algibeira

Por Eduardo Dâmaso
Director-Adjunto Correio da Manhã

"Em Portugal o estudo das ciências criminais tem apenas uma referência: a Escola de Direito Penal de Coimbra, onde pontificam há muitos anos Figueiredo Dias, Costa Andrade e Faria Costa.
A Faculdade de Direito do Porto criou um curso de criminologia que está a fazer o seu caminho. Mas foi para ir além do Direito que nasceu há 150 anos a criminologia enquanto disciplina científica, ou seja, para conhecer melhor o crime, o criminoso, a vítima, os perfis, as tendências sociais.
Para a criminologia convergem todos os saberes necessários a melhorar as políticas públicas de Justiça.
Para uma coisa a criminologia não serve: ir à televisão invocar fontes sem credibilidade e debitar umas anormalidades sobre os alegados hábitos sexuais do casal McCann como eventual pista de motivação de um crime contra os pais da pequena Madeleine. Isso nem chega a ser criminologia de algibeira..."

sábado, março 10, 2007

10 Anos da FDUP


O lançamento da Escola de Criminologia, inédita no país, e a criação de um observatório do crime, “em conjunto com a autarquia” foram duas das novidades ouvidas durante a cerimónia de encerramento dos dez anos da Faculdade de Direito. E muitas criticas aos media e à capital.

A Faculdade de Direito da Universidade do Porto comemorou ontem dez anos, numa cerimónia pautada pela diversidade. Foi anunciado que o Porto vai ter observatório do crime, num esforço conjunto com a autarquia da Invicta. Estiveram presentes o reitor da universidade do Porto, José Diogo Marques dos Santos e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, juiz conselheiro Luís António Noronha Nascimento.

Marques dos Santos e Noronha Nascimento foram recebidos à entrada da Faculdade pela “Legislatuna”, a tuna feminina da Faculdade de Direito (FDUP), que conferiu desde logo colorido e informalidade à cerimónia. A tuna, com cerca de três dezenas de elementos, interpretou vários temas, entre os quais “Barco Negro”.

O primeiro a intervir foi o reitor da universidade do Porto. Marques dos Santos salientou o empenho que possibilitou a fundação da faculdade e salientou o papel dos antigos alunos: “Devem desempenhar um papel importante na sociedade e no apoio financeiro à instituição”. O reitor sublinhou o sucesso escolar e profissional dos alunos que passaram pela faculdade de Direito, acrescentando que os 10 anos que agora se celebram correspondem à infância de uma instituição. “Mas a FDUP alcançou algo que normalmente só em fases mas tardias se conquista”, frisou. O corte de 15 por cento no orçamento estadual para a FDUP foi alvo de críticas do reitor: “O Estado é obrigado a financiar o ensino superior, e isso não está a acontecer.” Marques dos Santos lembrou a importância de “não haver desvio de verbas e a necessidade de atrair patrocínios, com a contribuição de antigos alunos e mecenato”. E concluiu, reiterou o desafio: “A Universidade do Porto tem de se afirmar entre as 100 melhores europeias”.

Escola de Criminologia: inédita no país

O presidente do Conselho Directivo da FDUP, José Neves Cruz, realçou vários acontecimentos que marcaram os dez anos da FDUP, entre os quais o doutoramento honoris causa de Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros. Neves Cruz recordou que a ideia de criar uma faculdade de Direito no Porto começou em 1920. Só depois de Abril de 1974, a ideia foi retomada e foram precisos 80 anos para realizar o sonho. O responsável sublinhou a a identidade própria da FDUP desde o início e a excelente empregabilidade dos graduados, que ronda os 100 por cento. “Temos 600 candidatos para 150 vagas, e a nota de entrada, 15, é das mais altas do país”, afirmou Neves Cruz.

O lançamento da Escola de Criminologia, inédita no país, foi uma das facetas da FDUP mais avivada ao longo dos discursos, bem como o espólio da biblioteca. “A nossa ambição é a excelência”, sustentou Neves Cruz, recordando a iniciativa da FDUP, referente à criação de uma licenciatura em Direito em Timor. O Porto terá também um “observatório do crime, em conjunção com a autarquia”, referiu o presidente.

Vontade razoável de esperar

A vice-presidente do Conselho Científico da FDUP, Luísa Neto fez um dos discursos menos formais da tarde. Recordou que a FDUP é “um espaço de afectos. Aqui os estudantes estão mal habituados, porque não somos a norma”. Luísa Neto referiu uma expressão “muito utilizada em Direito”, aplicando-a à FDUP: “Aqui tivemos de fazer escola”. Segundo a responsável do conselho científico, “aqui existe uma cumplicidade invulgar entre docentes e alunos, e dá uma grande satisfação ver o brilhozinho nos olhos, como diz a canção, no olhar dos estudantes”. Nunca esquecendo os alunos da FDUP, Luísa Neto lembrou as palavras do poeta Ricardo Reis: “Queremos formar pessoas felizes, verticais, verdadeiras”. E concluiu em tom filosófico, antecipando o futuro da FDUP: “A esperança é apenas a vontade razoável de esperar”.


O problema do “segredo de justiça”

A Oração de Sapiência, feita por Jorge Ribeiro de Faria, focou a publicidade inerente ao processo penal. Ribeiro de Faria falou naquilo a que apelidou do “grande problema de hoje: As fugas de informação, o segredo de justiça e o papel dos jornalistas”. O professor afirmou que o sensacionalismo dos media, “que hoje impera”, está a infringir o segredo de justiça: “O jornalista poderá violar o segredo de justiça e escusar-se, alegando segredo profissional? O que é divulgação e o que é matéria sigilosa? Pode a comunicação social violar o segredo de justiça?” Foram algumas das questões levantadas. A solução, para o professor, é fácil: “Vedar tudo até ao fim do processo. Proibir a publicação. A imprensa tem de estar vinculada ao segredo de justiça. A aquisição de notícia de forma fraudulenta tem de ser apurada. Se o agente directo não é descoberto, o jornalista é cúmplice”, criticou.


Noronha critica concentração na capital

Depois da projecção de um documentário alusivo aos 10 anos da FDUP, da actuação do Coral de Letras e da entrega de diplomas a antigos alunos, foi a vez do discurso de encerramento, por parte do Presidente do Supremo Tribunal, Noronha Nascimento. Dizendo-se “honrado pelo convite até por ser natural da cidade”, Noronha Nascimento frisou que a FDUP adquiriu um estatuto próprio e específico: “Coimbra foi durante séculos o pólo do saber português. Depois foi a vez da faculdade de Direito de Lisboa. O Noroeste não tinha saídas no plano jurídico. A concentração política na capital, à maneira da França e da Polónia, impedia a criação de uma Faculdade de Direito na Invicta. Mas, com a entrada na União Europeia as coisas mudaram”, sustentou o presidente do Supremo. “Depois, foram eliminados os cursos que estavam a mais, e a FDUP sedimentou-se, impôs-se por si própria.” De acordo com Noronha Nascimento, a faculdade surgiu com “muitos anos de atraso. Eu próprio tive de ir para Lisboa, a cidade do meu pai, cursar Direito, já que cá não havia essa possibilidade”.


terça-feira, novembro 28, 2006

Criminologia pela primeira vez


A nova licenciatura em Criminologia, inédita em Portugal, já está a funcionar na Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Aprovada há quatro anos pelo senado universitário, só este ano, porém, é que houve possibilidade de abertura de vagas 20 para estudantes vindos do ensino secundário e mais 20 para alunos já com formação académica ou oriundos de profissões da área da Justiça.

A apresentação oficial do curso foi ontem apadrinhada por Laborinho Lúcio, ex-ministro e juiz-conselheiro jubilado, e dois professores da área, ligados às universidades de Montreal (Canadá) e Lovaine (Bélgica), que mostraram ser a "ciência do crime" uma área de estudos já bem antiga, com profissões e investigação aprofundada nos respectivos países, ao contrário do que acontece em Portugal.

Mas em que consiste a criminologia e para que serve? De acordo com o director de curso, Cândido da Agra, dentro de quatro anos os diplomados com este curso deverão preencher várias lacunas actualmente verificáveis no contexto do trabalho dos tribunais e a sua relação com a delinquência.

Os exemplos mais práticos são a formação para a elaboração de "perícias de personalidade", que a lei diz serem atribuições para especialistas em criminologia - "os psicólogos não aprendem teoria do crime", assegura o académico -; estudos sobre a "trajectória do crime e da delinquência"; avaliação de "estratégias utilizadas na modificação de comportamentos desviantes" quer na área da resinserção social; bem como ainda o estudo da vitimologia. Laborinho Lúcio acrescenta outra a avaliação sobre a medida da pena adequada e com "significado" para cada condenado, cuja valoração do castigo é sempre diferente.

"O que se tem feito nestas áreas é apenas cartomância ou astrologia criminal. É utilizar estratégias "para ver no que dá', sem instrumentos prévios de avaliação de resultados. E, no fundo, esbanjar dinheiro público", argumenta o responsável do curso. Como exemplo da falta de conhecimento sobre a criminalidade e da não passagem de testemunho dos governos, Cândido da Agra recorda que já dois ministros de diferentes governos lhe pediram relatórios de idêntico teor, em que propunha a criação de um Observatório Nacional de Segurança. "A criminalidade aumentou ou baixou desde há 10 anos? Que sabemos? Nada!", frisa.

Para a criação de vagas para este curso, foi necessário retirar vagas a outros cursos da mesma instituição para fazer face às dificuldades postas pelos sucessivos governos.

A meias com Direito

O curso de Criminologia está inserido na Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto e vai ser ministrado em repartição de recursos com a licenciatura em Direito. Para este ano lectivo, o curso teve mais candidatos do que vagas. Metade dos alunos são pessoas já a exercer profissões na área da Justiça e segurança. De quatro anos, a licenciatura obedece já às normas do processo de Bolonha. Inclui algumas disciplinas comuns a Direito, mas introduz cadeiras até ao momento inexistentes no panorama académico português, como, por exemplo, "Ciências do comportamento desviante" e "Delinquência juvenil e justiça de menores".

in Jornal de Notícias.